A Hierarquia Orgânica do Ser

Representação simbólica da consciência e da luz interior

Coesão, relacionamentos, propósito, coordenação


Na natureza, a hierarquia não é apenas uma escala de poder. É uma organização de seres, consciências e funções interdependentes, na qual cada parte participa em sistemas mais abrangentes e, simultaneamente, integra sistemas menores.

Uma célula vive como unidade relativamente autónoma, mas participa num órgão. Os órgãos cooperam no corpo, os seres humanos participam na humanidade, a humanidade integra a vida planetária e o planeta pertence a sistemas cósmicos progressivamente mais vastos. Esta organização repete-se do infinitamente pequeno ao infinitamente grande: seres dentro de seres, consciências dentro de consciências, mónadas dentro de mónadas.

Segundo a Holosíntese, esta é uma hierarquia orgânica: não se funda principalmente na obediência exterior, mas na integração, na responsabilidade e na capacidade de coordenar diferenças sem destruir a sua autonomia. Quanto mais abrangente é uma consciência, mais seres e funções consegue incluir, compreender e harmonizar.

Hierarquia Orgânica

As hierarquias humanas — políticas, militares, económicas, profissionais ou religiosas — misturam frequentemente competência, hábitos, medo, dependência, ambição e corrupção. Não devem, por isso, ser usadas como imagem das hierarquias naturais ou espirituais.

Numa hierarquia orgânica, o nível mais abrangente não existe para explorar os níveis que contém. A sua função é:

A autoridade legítima decorre, assim, da capacidade de servir a totalidade. Quanto maior é o campo de consciência, maior é também a responsabilidade.

Espírito, Alma e Corpo na Organização do Ser

Cada ser integral manifesta-se em três níveis inseparáveis:

Consciência espiritual

Mantém a identidade e a coesão do ser. Liga o centro às suas múltiplas manifestações e relaciona cada unidade com as unidades mais abrangentes em que participa. A sua natureza não se reduz à energia nem à forma.

Consciência anímica

Coordena o movimento, os fluxos e os relacionamentos internos. Estrutura e transforma os corpos segundo arquétipos e matrizes, recolhe as experiências vividas e promove a sua síntese. A alma anima: faz circular a vida entre o centro e a periferia.

Consciência corporal ou egoica

Coordena a relação com as formas e com o ambiente imediato. Permite distinguir, escolher, agir e aprender nas condições concretas de cada dimensão. O ego é uma função necessária, mas torna-se desarmónico quando pretende controlar níveis do ser que ainda não consegue compreender.

Estes três níveis mantêm relativa autonomia, mas desenvolvem-se pela comunicação entre si. A maturidade não exige a destruição do ego: exige que ele reconheça o seu âmbito e coopere conscientemente com a alma e com o espírito.

Sistemas dentro de Sistemas

Todos os sistemas são constituídos por unidades menores e participam em unidades maiores. No corpo humano, partículas, átomos, moléculas, células e órgãos desempenham funções próprias, conservam memória e cooperam numa organização comum. O ser humano, por sua vez, participa em famílias, culturas, povos, humanidade, planeta e cosmos.

Esta estrutura não elimina o livre-arbítrio. Cada componente conserva uma margem de decisão adequada ao seu desenvolvimento. Por isso, ordem e desordem coexistem: as partes podem cooperar com o propósito do sistema, resistir-lhe ou gerar novas possibilidades. A hierarquia orgânica não é mecanicamente perfeita; encontra-se em desenvolvimento.

A harmonia surge quando os componentes se relacionam corretamente, os contrários se tornam complementares e a liberdade de cada parte contribui para o bem do conjunto.

Mónadas e Coletivos Unitários

Na Holosíntese, a Mónada é o campo de manifestação, perceção e memória do nível espiritual de um ser e relaciona-se predominantemente com a Dimensão Comum. É diferenciada, mas não está isolada: existe em comunhão com outras mónadas e pode participar em unidades de consciência mais abrangentes.

As mónadas relacionam-se segundo uma estrutura fractal. Uma unidade pode conter outras unidades e, simultaneamente, ser componente de uma unidade maior. Esta relação não significa que uma mónada seja espacialmente encerrada noutra; indica que os respetivos âmbitos de consciência e participação se interpenetram e organizam.

Quando vários seres atingem suficiente sintonia de propósito, circulação anímica e ligação espiritual, podem constituir um coletivo unitário. Este não é apenas um grupo social ou uma egrégora produzida por pensamentos semelhantes. É uma unidade funcional de consciência, capaz de:

Na generalidade da humanidade atual, os corpos intuicional e concetual ainda não se encontram individualizados. As respetivas funções podem ser contactadas e desenvolvidas através de coletivos unitários coordenados por consciências mais evoluídas.

Movimento descendente e movimento ascendente

A hierarquia orgânica funciona nos dois sentidos.

Do princípio para a manifestação

Os princípios concebidos no Absoluto são progressivamente adaptados às condições dos sistemas concretos. Arquétipos, subarquétipos, matrizes, energias e formas sucedem-se numa corrente criadora que vai do abstrato para o concreto, do simples para o complexo e do centro para a periferia.

Da experiência para a síntese

Nas formas vivem, percecionam, escolhem e acumulam experiência. As aprendizagens são sintetizadas e regressam aos níveis mais interiores, contribuindo para o aperfeiçoamento das matrizes e para novas possibilidades de manifestação.

Involução e evolução são, deste modo, movimentos complementares: a consciência entra na forma para experienciar e regressa ao centro transportando a síntese do vivido.

Estas duas correntes colaboram em todas as dimensões, mas a sua articulação torna-se especialmente evidente no Intuicional. Os chamados Budas cósmicos podem funcionar como centros de harmonização entre a hierarquia descendente, que conduz os princípios à manifestação, e a hierarquia ascendente, que eleva e integra as sínteses da experiência.

Os Budas

Neste modelo, a palavra Buda não designa apenas Siddhartha Gautama nem todos os significados atribuídos ao termo pelas diferentes escolas budistas. Designa, em sentido funcional, um ser que completou as sete etapas e correspondentes subetapas do desenvolvimento mental e individualizou o corpo intuicional, podendo nele atuar com consciência.

A consciência búdica é global e sintética. Não depende principalmente do encadeamento verbal ou da análise sequencial. Reconhece relações simultâneas, harmoniza as construções do mental com os princípios do Concetual e transmite inspiração aos seres que ainda desenvolvem a mente racional.

Os Budas podem:

O seu poder não resulta da imposição. Resulta da amplitude do seu campo de consciência, da comunhão com os seres que nele participam e da sintonia entre vontade, amor e sabedoria.

Os Logoi

Logos é o singular; Logoi, o plural. Na terminologia da Holosíntese, os Logoi são seres que estão a desenvolver a mente concetual e que atuam predominantemente nesse domínio. Participam na adaptação dos arquétipos abstratos às condições concretas dos sistemas que coordenam.

Um Logos não cria arbitrariamente as leis do seu sistema. Interpreta princípios mais universais e concebe os subarquétipos adequados ao ambiente, à escala e ao estado de desenvolvimento dos seres envolvidos. Pode existir coordenação logoica em diferentes amplitudes — planetária, estelar, galáctica ou noutras escalas — sem que todos os Logoi tenham a mesma função ou grau de desenvolvimento.

Entre as funções logoicas poderão encontrar-se:

O Logos funciona, relativamente ao sistema que integra, de modo análogo a um núcleo coordenador: não substitui as partes, mas mantém a sua relação com o propósito do todo.

Hierarquias Angélicas

As expressões anjos, arcanjos e hierarquias angélicas possuem significados diferentes nas tradições religiosas e esotéricas. Na Holosíntese, podem designar ordens de seres que colaboram especialmente na organização dos movimentos, das energias, dos campos e das formas.

Enquanto os Logoi atuam predominantemente na adaptação concetual dos arquétipos, as hierarquias angélicas participam na sua transmissão e estruturação através das dimensões progressivamente mais concretas. Poderão agir como construtores, mediadores, mantenedores ou transformadores de campos, sempre de acordo com a sua natureza e âmbito.

Esta distinção é funcional, não absoluta. Um ser muito evoluído é multidimensional e pode atuar em vários níveis. Logoi, Budas e hierarquias angélicas não devem ser reduzidos a degraus sucessivos de uma única pirâmide:

Avatares e corpos de manifestação

Avatar significa, originalmente, descida ou manifestação. No contexto deste artigo, a palavra pode designar um ser ou veículo através do qual uma consciência superior consegue atuar de forma particularmente direta num nível mais concreto.

Quando a personalidade deixa de se considerar o centro absoluto e coopera conscientemente com a alma, a consciência anímica pode atuar sobre ela, nela e através dela. Quando a ligação espiritual também se torna consciente, o ser funciona mais plenamente como manifestação do espírito.

Esta perspetiva permite uma leitura interior do símbolo do “corpo de Deus”: o corpo representa a forma; o sangue, o fluxo de energia e vida. Um avatar não é apenas uma aparência extraordinária, mas um sistema suficientemente alinhado para receber, conter e transmitir uma consciência mais abrangente.

Uma Hierarquia Viva

Todos os seres e todas as hierarquias do universo manifestado continuam em desenvolvimento. Mesmo uma consciência muito evoluída participa em unidades maiores, aprende através das relações e assume responsabilidades proporcionais à sua amplitude.

A hierarquia orgânica não é uma estrutura imóvel. Forma-se e transforma-se através de ciclos:

  1. diferenciação e entrada na manifestação;
  2. desenvolvimento das estruturas e capacidades;
  3. crise, inversão e reorientação;
  4. regresso consciente ao centro;
  5. integração das experiências num coletivo mais abrangente;
  6. início de um novo ciclo, numa escala superior.

Por isso, a ascensão não consiste em abandonar os seres ou níveis considerados inferiores. Consiste em aumentar a capacidade de os incluir, compreender, servir e harmonizar.

Uma linguagem simbólica e comparativa

Termos como Mónada, Buda, Logos, anjo, arcanjo e avatar provêm de tradições diferentes. Neste artigo são utilizados segundo o modelo da Holosíntese e não pretendem substituir as definições próprias dessas tradições, nem apresentar uma cosmologia como facto demonstrado.

A finalidade deste mapa é oferecer uma linguagem coerente para refletir sobre a organização da consciência, a interdependência dos seres e a passagem progressiva do individual para o coletivo, do coletivo para o comum e do comum para o Uno.

A verdadeira hierarquia não diminui as partes: amplia a consciência da unidade a que todas pertencem.

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